Caso Master expõe rachaduras no sistema financeiro

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Caso Master expõe rachaduras no sistema financeiro e alerta investidores

A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central, é apresentada pela autoridade monetária como um evento sem risco sistêmico, mas escancara fragilidades de regulação, supervisão e proteção ao investidor. O conglomerado respondia por 0,57% dos ativos do sistema, mas deixou uma conta estimada em R$ 41 bilhões em CDBs e 1,6 milhão de credores cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que terá de acionar cerca de um terço de seu caixa.

O caso expõe um modelo em que bancos captam com taxas muito acima da média, plataformas como XP, BTG Pactual e Nubank distribuem esses papéis, e o FGC socializa prejuízos. “Todos vamos pagar um pouco do prejuízo do caso Master”, resume o economista Roberto Luis Troster, ao classificar o episódio como exemplo de privatização de lucros e socialização de perdas.

Especialistas apontam falhas de supervisão ao permitir o crescimento acelerado do Master, alavancado em CDBs que pagavam até 160% do CDI e em ativos ilíquidos e de risco elevado, como participações em empresas em dificuldade e precatórios. Em maio, o banco já havia recebido um empréstimo emergencial de R$ 4 bilhões do próprio FGC, sinal evidente de estresse de liquidez. Ainda assim, a liquidação só veio após a prisão do controlador Daniel Vorcaro, acusado de fraude de R$ 12,2 bilhões e com ligações com nomes de peso da política e do Judiciário, inclusive ex-ministros e ex-presidentes do BC contratados como consultores.

O episódio reabre o debate sobre o papel das plataformas digitais, que venderam cerca de R$ 36 bilhões em CDBs do Master, e sobre o uso da garantia do FGC como argumento comercial para empurrar produtos de crédito privado com risco subestimado. XP, BTG e Nubank atuaram como intermediários dentro das regras, mas o modelo de distribuição em massa, atrelado a taxas de 120%, 140% e 150% do CDI, estimulou a busca por retorno sem adequada compreensão de risco por parte do investidor pessoa física.

Ao mesmo tempo, o caso reacende a discussão sobre mudanças no FGC. Setores do mercado defendem reduzir o valor segurado ou limitar a cobertura apenas ao principal, medida vista com cautela por economistas por poder incentivar corridas bancárias e enfraquecer bancos pequenos e médios. Troster defende diminuir o teto, mas manter a cobertura dos juros. Alexandre Chaia, do Insper, considera as propostas punitivas para o investidor e sustenta que o foco deve estar no balanço dos bancos e na proibição de captações “irreais” para financiar apostas em ativos de alto risco.

O Banco Central é cobrado por suposta leniência. Além do Master, vêm à tona outros sinais de vulnerabilidade: problemas em débitos automáticos do INSS, ataques cibernéticos que desviaram cerca de R$ 1 bilhão de instituições de pagamento e operações de lavagem de dinheiro envolvendo fundos de investimento. Na ata do Comitê de Estabilidade Financeira, o BC reconhece o desafio crescente dos riscos tecnológicos e recomenda “ecossistemas resilientes”, com monitoramento de APIs e respostas mais robustas a incidentes cibernéticos.

As conexões políticas do Master, a tentativa frustrada de venda ao BRB e a pressão de parlamentares para flexibilizar o controle sobre o Banco Central também levantam questionamentos sobre captura regulatória e influência de interesses privados sobre decisões de supervisão. Enquanto isso, o “efeito Master” já contamina outros elos da cadeia: CDBs do Banco Pleno, ligado a ex-sócio de Vorcaro, chegaram a ser negociados a 165% do CDI, num movimento que reflete medo de repetição do roteiro.

Para o investidor de varejo, a principal lição é de serviço: renda fixa não é sinônimo automático de segurança. Taxas muito acima da média costumam sinalizar risco de crédito elevado. Especialistas recomendam respeitar o limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição coberto pelo FGC, diversificar entre vários bancos, acompanhar rating, balanço, alavancagem e governança e desconfiar de promessas de ganho fácil. Em última instância, o caso Master expõe que, sem educação financeira, fiscalização rigorosa e transparência, o sistema pode continuar transferindo riscos escondidos para quem menos tem condições de suportá-los.

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