A coalizão da predação fiscal
Apesar de sucessivos recordes de arrecadação, a situação fiscal do Brasil segue em alerta máximo. Nos últimos meses, a receita federal ultrapassou a casa dos trilhões de reais, mas o governo continua operando com déficit primário e aumento da dívida pública, obrigando a manutenção de juros elevados e alimentando a percepção de “fúria arrecadatória” sobre trabalhadores e empresas.
Especialistas em contas públicas apontam um quadro de desequilíbrio estrutural: enquanto a carga tributária se mantém entre as mais altas do mundo emergente, o gasto obrigatório cresce sem reformas relevantes, empurrando o país para o que alguns economistas já classificam como risco de “insolvência técnica”.
Parte desse descompasso é atribuída ao aumento contínuo da máquina pública. A ampliação de ministérios, a criação de cargos e o uso político de estatais dificultam qualquer discurso de austeridade por parte do Executivo. Ao mesmo tempo, decisões do Legislativo e do Judiciário ampliam despesas com salários, benefícios e vantagens de categorias de alta renda, em contraste com a compressão de investimentos e serviços básicos.
Nesse ambiente, o governo federal recorre a medidas pontuais de aumento de receita, como mudanças em IOF, taxação sobre fundos, apostas e novos tributos setoriais. Para o contribuinte, a sensação é de aperto constante: mais impostos, mais burocracia e pouca contrapartida em serviços. Economistas alertam que esse modelo, baseado em extrair mais recursos de uma economia que cresce pouco, tende a sufocar a iniciativa privada e inibir investimentos.
O quadro de juros altos é outro efeito direto do desequilíbrio. Com dívida crescente e confiança frágil na trajetória fiscal, o Banco Central mantém a taxa básica em patamar elevado para conter expectativas de inflação, encarecendo crédito para famílias e empresas. Na prática, o setor produtivo paga a conta da combinação entre gasto rígido, renúncia a reformas estruturais e aumento de tributos.
Para especialistas em finanças públicas, o país caminha para um ponto de inflexão: ou o Estado revê privilégios, enfrenta corporações e reorganiza o gasto, ou permanecerá refém de um ciclo de arrecadação recorde, serviços ineficientes e crescimento medíocre. Até lá, a coalizão informal que se beneficia do atual arranjo — setores do Executivo, Legislativo, Judiciário e grupos organizados — segue preservada, enquanto o contribuinte vê a fatura aumentar mês a mês.