Quando o coração não acompanha o relógio

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Saúde mental entra no centro do trabalho

Há décadas o ritmo da vida humana acelera. Mas o pulsar do coração não acompanha essa velocidade. A nossa biologia não vai mudar só porque a demanda externa pede. Há um descompasso silencioso entre o corpo e o ambiente. Terreno fértil para o adoecimento.

É nesse cenário que uma discussão urgente se instala. A jornada 6×1 volta ao centro do debate político, econômico e social, enquanto a atualização da NR-1, que passa a incluir os riscos psicossociais como responsabilidade das organizações, avança no Brasil.

Os dados acendem um alerta: o país está entre os de maiores índices de ansiedade do mundo. Em relação à depressão, uma das principais causas de afastamento do trabalho, o país ocupa posição de destaque global, com 11,5 milhões de brasileiros afetados. E há mais: os relatos de burnout crescem de forma significativa. Reconhecido na CID desde 2022, o burnout é um estado de esgotamento físico e emocional causado por estresse crônico no trabalho, marcado por exaustão, distanciamento mental e queda de desempenho.

Onde estamos escorregando? O que ainda não estamos conseguindo ver? Além das perdas econômicas, trata-se de uma questão de saúde pública. A cada ano, há mais pessoas deprimidas, ansiosas, estressadas e exaustas.

A Organização Mundial da Saúde, em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, reconhece que as condições de trabalho são determinantes centrais da saúde mental. Reduzir a jornada pode ajudar, mas não basta. É preciso compreender a origem desse estado de alerta constante que mantém o organismo sob pressão contínua.

Diante desse cenário, falar em felicidade no trabalho pode soar ingênuo. Mas ignorar o problema é mais arriscado. O corpo, em escala populacional, emite sinais claros de sobrecarga. Estamos dispostos a escutar? Quando um número crescente de pessoas adoece, a explicação não pode ser reduzida à fragilidade individual. Estamos diante de um adoecimento coletivo produzido por ambientes que nós mesmos criamos.

Nesse contexto, a NR-1 representa um avanço importante. Mas surge um novo desafio: estamos preparados para essa mudança? Transformar culturas de trabalho exige revisão de práticas e, sobretudo, de mentalidade — ainda fortemente orientada pela lógica da produtividade a qualquer custo, gerando medo, ansiedade e burnout.

Há uma dimensão estrutural que precisa ser transformada: modelos de trabalho mais sustentáveis e organizações genuinamente comprometidas com a saúde mental.

Mas há também uma dimensão individual. O corpo humano precisa de ciclos: esforço, pausa e recomposição. Quando a pausa se torna insuficiente, o estado de alerta deixa de ser adaptativo e vira desgaste. A ciência do bem-estar aponta que o estresse permanente causa danos de alto impacto não apenas no indivíduo, mas em todo o seu entorno.

Cuidar da saúde no âmbito individual, portanto, passa pelo autoconhecimento, mudança de hábitos, escolhas conscientes e protagonismo diante da vida. Pequenas mudanças no cotidiano importam: criar pausas reais, cultivar relações saudáveis, incluir experiências que gerem bem-estar. E isso também se aprende.

Grande parte do que sustenta nosso comportamento não é visível, mas é determinante. A maneira como vivemos nossos dias atravessa a forma como sentimos, nos conectamos e existimos. A felicidade no trabalho nasce do encontro entre ambientes saudáveis e escolhas conscientes no cotidiano. Trazer presença e vitalidade para nossos momentos entre um dia e outro é o grande desafio dos nossos tempos.

A pergunta que permanece é: o que estamos construindo diariamente e o que seremos capazes de transformar?

*Deborah Dubner é psicóloga e escritora. Autora de sete livros relacionados a autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness.

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