Publicidade em debate nacional
Três encontros nacionais reúnem agências e representantes do setor nos dias 20 e 21 de agosto para discutir Reforma Tributária, ECA Digital, diversidade, longevidade e os novos desafios do mercado de comunicação
Belo Horizonte será ponto de encontro de representantes do mercado publicitário brasileiro nos dias 20 e 21 de agosto de 2026, quando a capital mineira receberá três eventos promovidos pelo Sistema Nacional das Agências de Propaganda, com apoio do Sindicato das Agências de Propaganda de Minas Gerais (Sinapro-MG). A programação reúne lideranças associativas, empresários e profissionais de diferentes estados para discutir mudanças regulatórias, gestão das agências, diversidade, novos perfis de consumidores e perspectivas para a atividade publicitária.
Os encontros serão realizados no prédio novo da FIEMG, na Avenida do Contorno, 4.456, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. A agenda é formada pelo Encontro com o Mercado, pela 6ª Rodada Nacional e pelo Encontro Nacional das Agências de Propaganda. Os dois primeiros também se destinam ao mercado publicitário em geral, enquanto o terceiro é reservado às lideranças e aos representantes das entidades que integram o Sistema Sinapro/Fenapro.
Debates chegam em momento de transformação
A realização dos encontros ocorre em uma fase de mudanças importantes para as empresas de comunicação. Além das transformações provocadas pela tecnologia e pelos novos hábitos de consumo, as agências precisam acompanhar um ambiente regulatório em evolução, com repercussões tributárias e novas regras relacionadas à atuação no meio digital.
Entre os principais assuntos previstos para o Encontro Nacional estão a Reforma Tributária do Consumo e o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, além de gestão, sustentabilidade empresarial, qualificação profissional e disseminação de conhecimento.
A Reforma Tributária já demanda atenção das empresas para mudanças nos sistemas, documentos fiscais, contratos, planejamento financeiro e formação de preços. Para o mercado da comunicação, acompanhar a transição é particularmente importante por se tratar de um setor formado predominantemente por prestadores de serviços e por uma extensa cadeia de relacionamento entre agências, anunciantes, veículos e fornecedores.
ECA Digital amplia responsabilidades
Outro assunto diretamente relacionado à publicidade é o ECA Digital, que estabeleceu novas regras para proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
A legislação amplia a necessidade de atenção das empresas que produzem, planejam ou distribuem comunicação comercial em ambientes digitais, especialmente em questões relacionadas à proteção do público infantil e adolescente.
Para agências, anunciantes, plataformas e produtores de conteúdo, as mudanças reforçam a importância de incorporar aspectos regulatórios ao planejamento de mídia, à criação das campanhas e às estratégias de comunicação.
Lideranças de diferentes estados
O Encontro Nacional das Agências de Propaganda deverá reunir cerca de 35 lideranças associativas provenientes de mais de 20 estados. O encontro será restrito aos representantes do Sistema e terá atividades na tarde de quinta-feira, dia 20, e na manhã de sexta-feira, dia 21.
Para a presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro), Ana Celina Bueno (foto), os encontros nacionais contribuem para fortalecer a atuação conjunta das entidades e criar espaços permanentes para compartilhamento de experiências.

“Os encontros nacionais são fundamentais para fortalecer a atuação conjunta das entidades que integram o Sistema”, afirma Ana Celina.
A agenda prevê discussões relacionadas à gestão das agências, sustentabilidade dos negócios, qualificação do setor, formação profissional e mudanças legislativas que possam afetar a atividade publicitária.
Rodada Nacional aproxima agências
Na noite de 20 de agosto será realizada a 6ª edição da Rodada Nacional, iniciativa aberta tanto às agências vinculadas aos sindicatos estaduais quanto às empresas não associadas.

A programação da etapa mineira pretende reunir conteúdo estratégico e aplicação prática, abordando temas do cotidiano empresarial, incluindo remuneração, licitações e questões tributárias e trabalhistas.
Outro objetivo será apresentar às agências dados, pesquisas, ferramentas, produtos e serviços desenvolvidos no âmbito do Sistema Sinapro/Fenapro, ampliando o acesso das empresas não filiadas às informações produzidas pelas entidades.
Mercado 50+ exige olhar além do consumo
Um dos destaques da Rodada Nacional será o painel “Tsunami Prateado: o mercado trilionário (e ainda invisível) dos 50+”, dedicado à discussão dos impactos do envelhecimento da população sobre o consumo e das oportunidades criadas por essa transformação para marcas, anunciantes e agências. Participam do painel Ana Celina Bueno e a pesquisadora Layla Vallias.
O crescimento da chamada economia prateada, no entanto, também abre uma discussão que ultrapassa o potencial de vendas desse grupo populacional.
Consultado pela reportagem sobre o tema, o professor Cássio Mota, Ph.D. Mestre e Doutor em Administração pela PUC Minas, defende que a transformação demográfica precisa ser analisada também a partir de uma perspectiva científica, social e de macromarketing. Isso significa observar não apenas o volume de consumo movimentado pelas pessoas maduras, mas também avaliar como os mercados estão sendo estruturados para atender efetivamente às necessidades de uma sociedade que envelhece.
Mota é autor da tese “Vulnerabilidade da pessoa idosa nas experiências de consumo de alimentos: uma abordagem de pesquisa transformativa”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas, na área de concentração em Estratégia e Marketing.
A investigação parte da compreensão de que a vulnerabilidade não deve ser associada automaticamente à idade. O estudo sustenta que ela pode surgir da interação entre as condições individuais e um ambiente que inclui cidade, mercado, serviços, tecnologia, informação e relações sociais. A tese desloca, assim, a análise do conceito de um “idoso vulnerável por definição” para a investigação de como contextos de mercado também podem produzir vulnerabilidades.
Na avaliação de Mota, o aumento da longevidade representa uma oportunidade econômica expressiva, mas enxergar a população madura simplesmente como um novo segmento de consumidores seria insuficiente.
O desafio envolve compreender suas experiências, diferentes graus de autonomia, expectativas, necessidades e limitações, além de avaliar se produtos, serviços e ambientes de consumo estão sendo adaptados às transformações demográficas.
Sua pesquisa identificou, no contexto do consumo alimentar, seis dimensões interligadas de vulnerabilidade: física e de saúde, econômica, cognitiva e tecnológica, emocional e psicológica, social e mercadológica. Morar sozinho apareceu ainda como um fator capaz de ampliar algumas dessas dificuldades.
Embora tenha como campo específico o consumo de alimentos, parte dos achados permite ampliar a reflexão para diferentes setores econômicos.
A dimensão mercadológica da pesquisa identifica situações nas quais ambientes, ofertas, formas de atendimento, comunicação e plataformas são desenvolvidos tendo como referência um consumidor mais jovem, rápido e familiarizado com a tecnologia. Entre os obstáculos observados aparecem baixa legibilidade de informações, exclusão tecnológica, formatos inadequados de produtos, ambientes pouco acessíveis e atendimento impaciente.
Segundo Mota, o envelhecimento da população tende, portanto, a exigir adaptações que alcancem serviços, indústria, varejo, tecnologia, espaços físicos e comunicação.
Essa perspectiva também traz uma provocação para a publicidade: campanhas direcionadas ao público maduro podem perder efetividade quando a mensagem de inclusão apresentada pelas marcas não encontra correspondência na experiência concreta oferecida ao consumidor.
Na análise do professor, simplesmente alterar personagens, imagens ou linguagem de campanhas para ampliar vendas ao público maduro pode resultar em uma comunicação vazia de propósito quando produto, preço, distribuição, atendimento e ambientes continuam inadequados.
A questão envolve o próprio composto de marketing. Não basta modificar apenas a comunicação se os demais elementos da oferta permanecem desconectados das necessidades do consumidor.
Macromarketing amplia discussão
A perspectiva defendida pelo pesquisador se aproxima do macromarketing, campo que estuda de maneira mais ampla as relações entre sistemas de mercado, instituições e sociedade.
A tese argumenta que mercados mal desenhados podem não apenas deixar de responder às necessidades de consumidores em situações de vulnerabilidade, mas também participar da produção dessas próprias vulnerabilidades.
Esse olhar modifica a própria pergunta estratégica das empresas.
Em vez de concentrar a discussão apenas em “como vender para consumidores com mais de 50 ou 60 anos?”, o debate passa também por outra questão: como produtos, serviços, canais, ambientes e empresas precisam evoluir para atender uma sociedade que viverá cada vez mais?
Para Mota, esse processo deveria estimular a construção de um verdadeiro ecossistema age-friendly, ou seja, amigável ao envelhecimento.
O conceito pressupõe pensar de forma integrada em produtos mais acessíveis, embalagens e informações legíveis, atendimento humanizado, inclusão digital, mobilidade, espaços adequados, hospitalidade comercial e serviços capazes de preservar autonomia e dignidade.
As implicações práticas apresentadas na pesquisa caminham justamente nessa direção, defendendo mercados mais legíveis, acessíveis e humanizados, com rotulagem clara, porções compatíveis com domicílios unipessoais, ambientes age-friendly, inclusão digital e desenho de serviços menos marcado pelo ageísmo.
Sob essa perspectiva, a longevidade representa mais do que uma nova fronteira comercial. Ela cria um desafio para toda a cadeia de consumo: aproximar produto, serviço, comunicação, propósito e experiência real.
O debate proposto pela Rodada Nacional ganha, assim, uma dimensão adicional. O crescimento econômico do mercado 50+ pode representar oportunidades relevantes para empresas e agências, mas o aproveitamento sustentável desse potencial depende também da capacidade do mercado de compreender cientificamente as transformações do envelhecimento e responder a elas com produtos e experiências adequados.
Diversidade também entra na pauta
A programação começa na manhã de quinta-feira, dia 20, com o Encontro com o Mercado, organizado pelo Sinapro-MG e voltado a convidados e profissionais de agências de publicidade.
O encontro terá como tema central a diversidade como instrumento de desenvolvimento do mercado de comunicação, discutindo seus reflexos para marcas, agências, veículos e fornecedores.
Entre os participantes anunciados estão Ana Celina Bueno, presidente da Fenapro, e Patricia Alexandre, presidente do Observatório da Diversidade na Comunicação (ODC) e diretora executiva do Sinapro-SP. A mediação será de Leticia Lins, consultora de Diversidade e Inclusão, doutora em Comunicação e pesquisadora de Gênero e Publicidade.
A proposta é aproximar as discussões sobre diversidade das decisões empresariais e estratégicas do setor, relacionando representatividade, conhecimento do consumidor, inovação e desenvolvimento das marcas.
Minas no circuito nacional
Para o presidente do Sinapro-MG, Gustavo Faria, receber os encontros amplia a participação das empresas mineiras nas principais discussões nacionais relacionadas ao setor.
“Receber os três eventos simultaneamente reforça a importância de Minas Gerais no cenário publicitário brasileiro”, afirma.
Segundo ele, a programação permite aproximar as agências mineiras dos debates nacionais e ampliar a troca de experiências entre profissionais de diferentes regiões.
Ao concentrar em dois dias assuntos como tributação, proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, diversidade, longevidade, transformação demográfica, gestão e modelos de negócio, os encontros evidenciam a amplitude das mudanças enfrentadas pela publicidade.
Mais do que acompanhar novas linguagens e tendências criativas, as empresas de comunicação precisam compreender transformações demográficas, econômicas, sociais, tecnológicas e regulatórias que modificam tanto o perfil dos consumidores quanto o funcionamento dos próprios mercados.
SERVIÇO
Encontro com o Mercado
Data: quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Horário de início: 9h
Local: prédio novo da FIEMG — Galeria Térreo
Endereço: Avenida do Contorno, 4.456, Funcionários, Belo Horizonte
Público: convidados e agências de publicidade, associadas ou não ao Sinapro-MG
Inscrições: pela plataforma Sympla, conforme disponibilidade de vagas.
Atenção ao horário: o material de divulgação informa programação das 9h às 11h, enquanto a página de inscrição consultada anteriormente registrava encerramento às 12h. A recomendação é confirmar o horário final com a organização antes do deslocamento.
6ª Rodada Nacional
Tema: “Tsunami Prateado: o mercado trilionário (e ainda invisível) dos 50+”
Data: quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Horário: 19h às 21h30
Local: prédio novo da FIEMG — Galeria Térreo
Endereço: Avenida do Contorno, 4.456, Funcionários, Belo Horizonte
Público: agências associadas e não associadas
Vagas: limitadas
Inscrições: pela plataforma Sympla.
Encontro Nacional das Agências de Propaganda
20 de agosto: das 14h às 18h
21 de agosto: das 9h às 13h
Local: prédio novo da FIEMG, Avenida do Contorno, 4.456, Funcionários, Belo Horizonte
Público: exclusivo para lideranças e representantes das entidades integrantes do Sistema Sinapro/Fenapro.