CCBB BH recebe primeira grande exposição sobre memes
Reunindo mais de 800 criações de 200 produtores de conteúdo e artistas, a mostra investiga os memes como forma de linguagem, crítica, afeto coletivo e produção estética. De virais históricos como o “Sanduíche-íche” à profusão das carretas e trenzinhos da alegria, a exposição mergulha na cultura digital brasileira e na potência do humor. A exposição chega à capital mineira depois de temporadas de sucesso em São Paulo e Brasília.
O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de memes do mundo, e agora também será o primeiro país a receber uma grande exposição dedicada a esse fenômeno. Com estreia marcada para 28 de março de 2026 no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), a mostra “MEME: no Br@sil da memeficação”, que
poderá ser conferida até 22 de junho, reúne cultura digital, arte contemporânea e crítica social, ao apresentar cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas.

Depois de BH, a exposição segue para o Rio de Janeiro até novembro de 2026. Com curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, e colaboração do perfil de Instagram @newmemeseum, a mostra convida o público a explorar a memeficação como um dos modos mais potentes – e irônicos – de narrar o Brasil contemporâneo. “Memes não são só piadas. Eles são ferramentas políticas, culturais e afetivas. São como o Brasil elabora, disputa e contorna suas diferenças – sociais, raciais, de gênero, estéticas – em tempo real”, afirma Clarissa Diniz. “A exposição parte do humor para provocar: como estamos refazendo o país através de suas imagens mais debochadas?”.
“É impossível compreender o Brasil de hoje sem entender seus memes”, diz Ismael Monticelli.
“Eles não apenas refletem a realidade, mas atuam sobre ela: produzem memória, disputam
narrativa, geram pertencimento. Enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil”.
A proposta curatorial rompe fronteiras entre o que é visto como “alta” e “baixa” cultura,
reunindo nomes consagrados da arte contemporânea brasileira, como Anna Maria Maiolino,
Gretta Sarfaty, Nelson Leirner e Claudio Tozzi, ao lado de criadores de conteúdo como
Blogueirinha, Porta dos Fundos, Alessandra Araújo, Melted Vídeos, John Drops e Greengo
Dictionary.
O meme antes do meme
Organizada em cinco núcleos temáticos – Ao pé da letra, A hora dos amadores, Da versão à
inversão, O eu proliferado e Combater ficção com ficção – tendo como prólogo um espaço tátil
intitulado Alisa meu pelo e epílogo Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?, a
mostra ocupa o pátio e o 3º andar do CCBB BH e possui cenografia imersiva e uma ampla
diversidade de linguagens: vídeos, neons, esculturas, roupas, quadrinhos, pinturas, objetos,
backlights, instalações sonoras e experiências interativas.
“A exposição não tem a ambição de ser um inventário do humor nacional, mas investigar os
memes como uma linguagem viva, que transborda a internet e afeta diretamente nossas formas
de pensar, sentir e agir”, afirma Ismael Monticelli. “Eles são dispositivos de memória, de disputa e
de pertencimento, que operam em altíssima velocidade e atravessam todas as camadas da vida
social”.
“Queremos provocar o público a pensar: será que essa vocação memética do Brasil começou
mesmo com os memes digitais?”, questiona Clarissa Diniz. “Ou será que ela já se anunciava no
carnaval, nos bordões da TV, nas pichações e nos outdoors? O que acontece quando política,
publicidade e arte se dobram aos formatos da zoeira?”.
Ao receber este projeto, o Centro Cultural Banco do Brasil reafirma seu papel como um espaço
vivo de diálogo com as linguagens contemporâneas, valorizando a potência crítica, afetiva e
estética que surge tanto das redes quanto das ruas. A mostra também reforça o compromisso do
CCBB com a valorização da cultura brasileira em toda a sua diversidade, incluindo as expressões
que nascem, se desenvolvem e se reinventam no ambiente digital.
Percurso da mostra
Prólogo – Alisa Meu Pelo | Pátio do CCBB BH
O meme “Alisa meu pelo”, surgido em 2017 a partir da onça-pintada da nota de R$50,
acompanhada da legenda “alisa meu pelo (onça carente)”, viralizou ao ressignificar a onça não
como ícone de virilidade, mas como símbolo afetivo, carente e próximo. Ao se difundir, o meme
passou a comentar o próprio Brasil de forma leve e zombeteira, ativando uma produção
simbólica popular e participativa. Na exposição, onças em diferentes materiais convidam o
público ao toque e à interação, ampliando esse gesto coletivo de humor e reflexão. Participaram
da criação das onças os artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.
Núcleo 1 – Ao pé da letra | 3º andar do CCBB BH
No primeiro núcleo da exposição, o foco recai sobre os jogos semânticos e os descompassos
entre texto e imagem que tornam os memes tão eficazes em gerar riso, crítica e estranhamento.
Em vez de explicarem um ao outro, palavras e figuras se combinam para formar sentidos
inesperados – ou se colam literalmente, desnaturalizando expressões e convenções sociais.
Abordando práticas como o uso de emojis, narrações e dublagens cômicas, além de línguas
digitais como o tiopês, o pajubá e estruturas como o snowclone, o núcleo revela como essas
invenções linguísticas produzem deslocamentos de sentido e potência crítica.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Amanda Magalhães (@amandzmagalhaes), Daniel
Santiago, Frimes (@frimes), Greengo Dictionary (@greengodictionary), Guto TV (@gutotvreal),
Leandra Espírito Santo, Melted Vídeos (@meltedvideos), Nelson Leirner, Pamella Anderson,
Panos Subversivos (@panossubversivos), Rafael Portugal (@rafaelportugal), Raquel Real
(@raquelrealoficial), Roxinha e Ruth Lemos.
Núcleo 2 – A hora dos amadores | 3º andar do CCBB BH
Inspirado pela célebre capa da revista Time de 2006, que elegeu "você" como a personalidade do
ano, este núcleo aborda a virada provocada pela internet e pelas redes sociais, que deram
visibilidade inédita às “pessoas comuns”. Os memes, nesse contexto, aparecem como uma
tecnologia social de protagonismo, permitindo que vozes antes apagadas ou silenciadas ocupem
o centro da cena cultural. Em países como o Brasil, marcados por fortes desigualdades, os memes
se tornaram um território fértil para narrativas insurgentes: do humor que revela a precariedade
cotidiana à crítica social feita com poucos recursos e muita sagacidade. Este núcleo celebra essa
potência do amadorismo como desvio criativo e força política.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Alessandra Araújo (@alessandraraujooficial), Valdisnei
(Lourival Cuquinha e Daniela Brilhante), Malfeitona (@malfeitona), O Brasil Que Deu Certo
(@obrasilquedeucerto) e Raphael Vicente (@raphaelvicente).
Núcleo 3 – Da versão à inversão | 3º andar do CCBB BH
Se a imitação é uma das bases da linguagem memética, aqui ela é entendida como gesto crítico e
criativo. Este núcleo mostra como memes transformam cópias em versões que subvertem e
desmontam o original, produzindo humor, paródia e comentário social. A exposição apresenta
desde pequenas alterações – como trocar uma palavra ou fazer um recorte específico de imagem
– até inversões radicais: mulheres imitando homens, humanos dublando animais, estéticas que
embaralham as fronteiras entre identidade e representação. Como no carnaval, o riso vem da
inversão – e nela, uma crítica se insinua.
Alguns criadores presentes no núcleo são: A Vida de Tina (@avidadetina), Alexandre Mury, Festa
da Firma (@festadafirma), John Drops (@johndrops), Juvi Chagas (@ajuvichagas), Lara Santana
(@larasantana), Malhassaum (@malhassaum), Porta dos Fundos (@portadosfundos), Renata
Felinto e Victor Arruda.
Núcleo 4 – O eu proliferado | 3º andar do CCBB BH
Neste núcleo, a curadoria volta-se à explosão do “eu” nas redes sociais e à forma como a vida
privada se tornou espetáculo. A internet deixou de ser apenas um espaço de compartilhamento
para se tornar um palco de autoperformance. A construção de si – por meio de selfies, dancinhas,
relatos, confissões e personagens – tornou-se prática cotidiana, revelando tanto o desejo de
existir publicamente quanto os efeitos dessa hiperexposição. O núcleo aborda a dramaturgia do
“eu” como potência e armadilha. Se, por um lado, possibilita a afirmação de identidades
historicamente apagadas, por outro, evidencia o impacto subjetivo da lógica neoliberal, que
transforma autoestima em mercadoria e precariza o bem-estar mental.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Blogueirinha (@blogueirinha), Coach de Fracassos
(@coachdefracassos), Frases Pra Você (@frasespravoce), Galinhas Inseguras
(@galinhasinseguras), Gretta Sarfaty, Jacira Doce (@jaciradoce), Lenora de Barros, Nathalia Cruz
(@nathaliapontocruz), Panmela Castro, Pedro Vinicio (@pedrovinicio80), Regina Vater, Telma
Saraiva, Valentina Bandeira (@valentinabandeira) e Valeska Soares.
Núcleo 5 – Combater ficção com ficção | 3º andar do CCBB BH
A polarização política e a radicalização do discurso público são temas centrais deste núcleo, que
examina o papel dos memes na disputa simbólica do presente. Ao mesmo tempo em que são
ferramentas de enfrentamento, síntese e resistência, os memes podem também ser veículos de
desinformação, exclusão e violência simbólica. A curadoria propõe aqui uma reflexão sobre os
usos éticos do riso, compreendendo o humor como forma sofisticada de diplomacia, mas
também como instrumento perigoso nas mãos do autoritarismo. Entre memecracia e
memecrítica, este núcleo convida a pensar: como rir sem reforçar os estigmas que queremos
combater?
Alguns criadores presentes no núcleo são: Augusto de Campos, Claudio Tozzi, Dolangue News
(@dolangue.news), História no Paint (@historianopaint), Juju dos Teclados (@jujudosteclados),
Marcelo Tas (@marcelotas), O Pasquim, Paulo Gustavo, Porta dos Fundos (@portadosfundos),
Regina Silveira, Saquinho de Lixo (@saquinhodelixo) e Sensacionalista (@sensacionalista).
Epílogo – Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam? | 3º andar do CCBB BH
Encerrando o percurso, o epílogo da exposição abraça a impossibilidade de definir os memes de
maneira definitiva. Ao invés de uma resposta fixa, a curadoria propõe uma provocação coletiva:
como cada pessoa compreende o que é um meme? O que eles significam hoje? O epílogo contou
com a colaboração da equipe do #MUSEUdeMEMES da Universidade Federal Fluminense,
coordenada por Viktor Chagas, maior estudioso de memes no Brasil, e apresenta 10 entrevistas
com criadores brasileiros, como Gregório Duvivier e Malfeitona, que responderam, em vídeo,
essa indagação existencial com liberdade e afeto. Aqui, o meme é entendido como forma fluida,
mutante e bastarda – que habita os interstícios da linguagem, circula entre mídias e revela, no
improviso, a imaginação crítica do nosso tempo.
"MEME: no Br@sil da memeficação" é uma produção da Patuá Produções, com patrocínio do
Banco do Brasi e da BB Asset. Depois de Belo Horizonte, a exposição será apresentada no Rio de
Janeiro (agosto a novembro de 2026).
Sobre os curadores
Clarissa Diniz é curadora, escritora e professora em arte com 20 anos de carreira. Professora da
Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi uma das primeiras curadoras brasileiras a incluir memes em
exposições. Realizou curadorias em importantes instituições como no Museu de Arte do Rio, na
Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Artes de São Paulo – MASP. Ao longo de sua carreira, já
realizou curadorias de exposições como: Contrapensamento selvagem (cocuradoria com Cayo
Honorato, Orlando Maneschy e Paulo Herkenhoff. Instituto Itaú Cultural, SP); O abrigo e o
terreno (cocuradoria com Paulo Herkenhoff. Museu de Arte do Rio – MAR,
2013); Ambiguações (Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2013); Todo mundo é,
exceto quem não é – 13ª Bienal Naifs do Brasil (SESC Piracicaba, 2016 e Sesc Belezinho,2017); Dja
Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena (cocuradoria com Sandra Benites, Pablo Lafuente e José
Ribamar Bessa. MAR, 2017); Rio do samba: resistência e reinvenção (cocuradoria com Evandro
Salles, Marcelo Campos e Nei Lopes. MAR, 2018); À Nordeste (cocuradoria com Bitu Cassundé e
Marcelo Campos. Sesc 24 de Maio, São Paulo, 2019); Raio-que-o-parta: ficções do moderno no
Brasil (cocuradoria com Raphael Fonseca, Fernanda Pitta, Aldrin Figueiredo, Marcelo Campos,
Divino Sobral e Paula Ramos. Sesc 24 de Maio, 2022) e Histórias Brasileiras (cocuradoria com
Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Sandra Benites, Isabella Rjeille, Amanda Carneiro, André
Mesquita, Guilherme Guifrida, Glacea Britto, dentre outros, MASP, 2022). Entre 2006 e 2015, foi
editora da revista Tatuí, principal revista de crítica de arte brasileira, de viés experimental.
Publicou inúmeros catálogos e livros.
Ismael Monticelli é artista multimídia. Sua pesquisa de doutorado, concluída em 2022, enfocou a
relação entre arte, internet e redes sociais. Foi contemplado pelo programa Retomada Artes
Visuais (2023) da Fundação Nacional de Artes – Funarte. Recebeu o 7º Prêmio Indústria Nacional
Marcantonio Vilaça (2019), o mais importante prêmio para artistas em atuação no Brasil.
Também foi um dos três artistas selecionados para a Bolsa ProHelvetia de Residência para
Artistas Sul-Americanos, realizada na La Becque Résidence d’Artistes, La Tour-de-Peilz, Suíça
(2019). Realizou residência no Institute of Contemporary Arts de Singapura, desenvolvendo um
trabalho com parte da coleção da instituição. Participou da 14ª e da 10ª Bienal do Mercosul (2025
e 2015). Entre 2022 e 2023, seu trabalho foi destacado pelo The Guardian, pela Apollo Magazine
e pela Ocula Magazine, durante sua participação na exposição Horror in the Modernist Block
(curadoria de Melanie Pocock, Ikon Gallery, Birmingham, Reino Unido). Realizou diversas
exposições individuais, como O Teatro do Terror (Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, 2025; Museu
Nacional da República, Brasília, 2024); e O que sobrenada, sobrenada no caos (curadoria de
Clarissa Diniz, Portas Vilaseca Galeria, Rio de Janeiro, 2022). Participou de diversas exposições
coletivas no Brasil e em países como Reino Unido, Estados Unidos, Suíça e Singapura. Possui
Doutorado em Arte e Cultura Contemporânea – Arte, Imagem e Escrita (UERJ, 2022), Mestrado
em Artes Visuais – Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano (UFPel, 2014) e Bacharelado em
Artes Visuais (UFRGS, 2010).
Colaboração | Perfil de instagram New Memeseum
O @newmemeseum foi criado no final de julho de 2020 e conta com quase meio milhão de
seguidores. Uma das principais motivações de sua criação foi o desejo de refletir, com humor e
ironia, sobre os mecanismos adotados para sobreviver no/ao mundo da arte e, também, sobre os
mecanismos que o mundo da arte nos impinge. O perfil realizou a ocupação virtual Combater
ficção com ficção no projeto ofício:web do Sesc Pompéia, São Paulo, que ficou em cartaz de julho
a agosto de 2021. Participou da terceira edição do programa Pivô Satélite, São Paulo, intitulada
Sexo, Mentiras e Videotape, com curadoria de Raphael Fonseca, com a proposta Panorama
Botijão da Arte Brasileira. Além disso, o trabalho do perfil já foi destacado pelos Jornais Folha de
São Paulo e O Globo.
Circuito Liberdade
O CCBB BH é integrante do Circuito Liberdade, complexo cultural sob gestão da Secretaria de
Estado de Cultura e Turismo (Secult), que reúne diversos espaços com as mais variadas formas de
manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. Trabalhando em rede, as
atividades dos equipamentos parceiros ao Circuito buscam desenvolvimento humano, cultural,
turístico, social e econômico, com foco na economia criativa como mecanismo de geração de
emprego e renda, além da democratização e ampliação do acesso da população às atividades
propostas.
Serviço:
Exposição "MEME: no Br@sil da memeficação”
Período: 28 de março a 22 de junho de 2026
Horário: De quarta a segunda, das 10h às 22h
Local: Pátio e Galerias do 3º Andar – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH)
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte – MG
Ingressos: Gratuitos, disponíveis pelo site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH