Pensamento de soma zero e crenças políticas
Por Rainer Zitelmann
Nos últimos anos, pesquisadores têm dedicado cada vez mais atenção ao chamado pensamento de soma zero, ou seja, a crença bastante difundida de que ganhos econômicos, sociais ou políticos de um grupo só podem ocorrer às custas de outros grupos. Entre os estudiosos que investigaram a relação entre esse tipo de pensamento e as ideologias políticas, estão Shai Davidai e Martino Ongis, da Universidade Columbia, em Nova York. Os dois pesquisadores realizaram seis estudos com a participação de 3.223 pessoas para verificar se — e em quais temas políticos — conservadores ou pessoas de esquerda têm maior tendência a adotar uma mentalidade de soma zero. A conclusão deles foi a seguinte:
Os pesquisadores destacam que os conservadores demonstraram uma inclinação significativamente menor que os esquerdistas para o pensamento de soma zero no tema da redistribuição, enquanto se mostraram mais propensos a esse tipo de pensamento em relação à ação afirmativa. Ação afirmativa refere-se a medidas governamentais ou institucionais voltadas a promover determinados grupos, como mulheres ou pessoas negras, por meio de tratamento preferencial em contratações ou na admissão em universidades.
Os esquerdistas, por exemplo, tinham maior probabilidade de concordar com a afirmação: “As pessoas só conseguem enriquecer às custas dos outros”. Já os conservadores tendiam mais a concordar com afirmações como: “Quanto mais fácil for para estudantes negros serem admitidos na universidade, mais difícil se torna para estudantes brancos conseguirem uma vaga”.
No entanto, esses resultados também podem levar a conclusões diferentes daquelas apresentadas por Davidai e Ongis. A diferença crucial está em saber se enxergar uma situação como soma zero realmente corresponde à realidade ou não. No campo da economia, o pensamento de soma zero é equivocado. A afirmação acima, de que os ricos só podem enriquecer às custas dos pobres, simplesmente não é verdadeira. Afinal, como explicar os acontecimentos das últimas décadas, que registraram uma redução enorme da pobreza global ao mesmo tempo em que o número de bilionários aumentou drasticamente?
A situação é diferente, no entanto, em relação à afirmação: “Quanto mais fácil for para estudantes negros serem admitidos na universidade, mais difícil se torna para estudantes brancos conseguirem uma vaga”. Se uma universidade aceita apenas 1.000 candidatos e reduz as barreiras para estudantes negros, introduzindo cotas ou diminuindo os requisitos dos exames de ingresso, de fato, menos estudantes brancos conseguirão ser admitidos nessa universidade. Enquanto o pensamento de soma zero não se aplica à economia, porque o crescimento econômico não segue uma lógica de soma zero, ele se aplica às admissões universitárias, porque, nesse caso, a situação é objetivamente de soma zero.
Outro estudo importante a respeito, Zero-Sum Thinking and the Roots of U.S. Political Differences [em português, Pensamento de Soma Zero e as Raízes das Diferenças Políticas nos EUA], foi publicado em agosto de 2025 por Sahil Chinoy, Nathan Nunn, Sandra Sequeira e Stefanie Stantcheva, da Universidade de Harvard, da Universidade da Colúmbia Britânica e da London School of Economics. O estudo se baseou em pesquisas com 20.400 cidadãos norte-americanos.
Entre suas conclusões, os pesquisadores apontaram que o pensamento de soma zero está correlacionado tanto com o apoio à redistribuição quanto com políticas de imigração mais restritivas. Esse resultado também foi confirmado em outros países, sendo que a correlação estatística entre o pensamento de soma zero e o apoio à redistribuição é significativamente mais forte do que a correlação entre pensamento de soma zero e apoio a políticas de imigração restritivas.
Aqui, novamente aplica-se o seguinte: enquanto a afirmação “se um grupo se torna mais rico, geralmente isso ocorre às custas de outros grupos” é objetivamente falsa, a questão da migração é mais complexa. O estudo de Davidai e Ongis chegou a uma conclusão clara: “Quanto mais os participantes viam a imigração como uma situação de soma zero, maior era seu apoio a uma postura rígida em relação à imigração”.
No que diz respeito à imigração, a situação não é tão simples. A migração para sistemas de bem-estar social, que desempenha um papel importante em muitos países europeus e também existe nos Estados Unidos, deve ser avaliada de forma diferente, no que se refere à questão da soma zero, em comparação à migração para o mercado de trabalho. Faz diferença se alguém imigra de um país pobre e passa a depender do auxílio social ou se, por exemplo, uma empresa americana contrata um especialista altamente qualificado. No primeiro cenário, trata-se objetivamente de uma situação de soma zero se o imigrante não contribui de forma produtiva para a economia dos EUA, mas vive principalmente do auxílio social, já que a “torta econômica” não aumenta. No segundo cenário, entretanto, não se trata de um jogo de soma zero, porque o imigrante aumenta o valor agregado total da economia, fazendo a “torta” crescer.
O pensamento de soma zero, como uma percepção equivocada da realidade, pode ser encontrado em todo o espectro político, tanto à esquerda quanto à direita. Por exemplo, Donald Trump e Bernie Sanders compartilham a ideia de que o comércio é um jogo de soma zero, uma visão repetidamente refutada por economistas. No entanto, o pensamento de soma zero em relação à ação afirmativa, ao contrário da economia, não é uma percepção falsa da realidade, e, no que diz respeito à imigração, a aplicação do pensamento de soma zero depende do tipo de imigração envolvida. O pensamento de soma zero só é equivocado quando uma situação que não é de soma zero — como o comércio ou a relação entre pobreza e riqueza — é erroneamente percebida como tal.
RAINER ZITELMANN
É doutor em História e Sociologia. Ele é autor de 26 livros, lecionou na Universidade Livre de Berlim e foi chefe de seção de um grande jornal da Alemanha. No Brasil, publicou, em parceria com o IL, O Capitalismo não é o problema, é a solução e Em defesa do capitalismo – Desmascarando mitos.
SOBRE O IL
O Instituto Liberal foi criado por Donald Stewart Jr. no Rio de Janeiro, em 1983. Sua missão é difundir e defender o liberalismo, em suas diversas vertentes teóricas, e as vantagens de seus princípios e agendas para a sociedade. Atualmente o IL atua na publicação e tradução de grandes obras sobre o liberalismo, desenvolvimento de eventos memoráveis e cursos imperdíveis.