Oferta hostil da Paramount pela Warner

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Oferta hostil da Paramount expõe fragilidade financeira dos estúdios tradicionais e amplia incertezas regulatórias no setor global de mídia

Para o especialista Marcos Pelozato, disputa pela Warner evidencia falhas estruturais de gestão e pressiona modelos legados diante do avanço das plataformas digitais

A oferta hostil de US$ 108 bilhões apresentada pela Paramount para adquirir a Warner Bros. Discovery, valor 50% superior ao lance inicial da Netflix, intensificou uma das maiores disputas corporativas da década no setor de entretenimento. O movimento ocorre em um momento de forte assimetria entre empresas digitais e estúdios tradicionais, cujos balanços mostram sinais de desgaste após anos de queda de receita publicitária, retração das salas de cinema e endividamento crescente. A Warner, por exemplo, encerrou 2024 com dívidas superiores a US$ 43 bilhões, segundo relatórios públicos do mercado.

Para o advogado, contador e especialista em estratégia empresarial e reestruturação corporativa Marcos Pelozato, a ofensiva da Paramount revela mais do que um embate por ativos, evidencia a fragilidade estrutural de modelos de negócios que não acompanharam a velocidade de transformação do consumo audiovisual. “A disputa mostra dois mundos distintos em choque. Enquanto a Netflix opera com um modelo escalável, leve e baseado em receita recorrente, estúdios tradicionais carregam estruturas pesadas, dependentes de bilheteria e publicidade. Quando o mercado muda, quem não se antecipou fica vulnerável”, afirma o especialista.

A elevação de ofertas e a tentativa de atrair diretamente os acionistas da Warner refletem, segundo Pelozato, a deterioração da autonomia financeira dos estúdios legados. “Quando uma empresa chega ao ponto de ser alvo de uma oferta hostil, normalmente há sinais claros de perda de fôlego estratégico. Margens comprimidas, redução de caixa e endividamento forçam o negócio a uma posição defensiva, abrindo espaço para movimentos agressivos de concorrentes”, avalia.

A Paramount sustenta que sua proposta tem maiores chances de aprovação regulatória do que a da Netflix, argumentando que a união do primeiro e do terceiro serviços de streaming mais utilizados do mundo poderia gerar concentração excessiva de mercado. O temor não é infundado, órgãos antitruste dos Estados Unidos intensificaram fiscalizações desde 2022, vetando ou impondo restrições a megafusões em tecnologia e mídia. A Netflix, por sua vez, rebate afirmando que detém apenas 8% do tempo total de uso da TV nos EUA, segundo dados da Nielsen, o que reduz a percepção de risco concorrencial.

Para Pelozato, os dois cenários carregam riscos relevantes. “A aquisição pela Netflix enfrenta uma barreira regulatória alta, mas a união com a Paramount também traz complexidade. Os reguladores analisarão não apenas participação de mercado, mas o impacto sobre diversidade de oferta, ecossistemas de distribuição e poder de negociação com criadores e anunciantes. É um processo longo e incerto”, explica.

Ele destaca que o caso norte-americano oferece um alerta aplicável ao ambiente empresarial brasileiro. “O que vemos é o efeito direto da ausência de estratégia de longo prazo. Empresas tradicionais só buscaram adaptação quando a Netflix já havia consolidado escala global. Essa postura reativa costuma custar caro. No Brasil, acompanhamos esse padrão diariamente: negócios que atrasam decisões estruturais chegam à crise com pouca margem de manobra”, afirma.

A depender da decisão dos acionistas e dos órgãos reguladores, a disputa pode remodelar todo o mercado global de mídia. Caso a Paramount vença, a Warner deverá pagar multa de US$ 2,8 bilhões à Netflix; se a Netflix for aprovada e o acordo for barrado, pagará US$ 5,8 bilhões à WBD. “Esses valores já indicam o nível de risco embutido na operação. Quando multas bilionárias fazem parte da equação, significa que o setor está operando em um grau elevado de instabilidade financeira”, analisa Pelozato.

Para o especialista, o desfecho ainda é imprevisível, mas a mensagem central está clara. “O mercado muda antes que as empresas percebam. Quem não se prepara para operar com eficiência, flexibilidade e visão estratégica abre espaço para ser engolido por concorrentes mais adaptados. Paramount, Warner e Netflix estão apenas mostrando ao mundo, em escala bilionária, o que acontece todos os dias com empresas que subestimam transformações estruturais”, conclui.

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