STF sob pressão: operação de Moraes amplia tensão institucional em meio a desdobramentos do caso Master
Decisão do ministro Alexandre de Moraes gera desconforto interno enquanto liquidações bancárias elevam impacto ao FGC para R$ 51,8 bilhões
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de autorizar operação da Polícia Federal para investigar servidores da Receita Federal suspeitos de acessar e vazar dados de ministros e familiares provocou desconforto entre integrantes da Corte.
A operação foi deflagrada na terça-feira (17), após pedido de medidas cautelares apresentado pela Procuradoria-Geral da República. A investigação busca apurar eventuais consultas indevidas a informações fiscais de ministros do STF e familiares, incluindo a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O escritório Barci de Moraes celebrou um contrato que poderia chegar a R$ 136 milhões com o Banco Master, de Daniel Vorcaro. O valor é considerado, segundo análises do setor, ao menos dez vezes superior a contratos de honorários fixos usualmente praticados na advocacia (desconsiderados eventuais percentuais de êxito), o que o coloca como o maior já registrados no país nessa modalidade.
O Banco Master e suas relações em Brasília.
O episódio levanta questionamentos sobre a atuação do banco e seus vínculos institucionais. O empresário Daniel Vorcaro foi citado em reportagens que mencionam interlocuções com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além de desdobramentos relacionados à condução de investigações no Supremo Tribunal Federal. Também foram mencionados, em declarações públicas, o senador Jacques Wagner — que confirmou ter indicado Guido Mantega para prestar consultoria ao banco — e o ex-ministro do STF e da Justiça Ricardo Lewandowski. Trata-se do maior casos envolvendo o Sistema Financeiro Nacional.
Divergências internas
Segundo relatos de magistrados ouvidos sob reserva, parte dos ministros considerou que a apuração poderia ter sido encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, que se encontrava de férias, antes da adoção das medidas. Moraes exercia a substituição na presidência no período.
Entre as críticas está o fato de a investigação estar conectada ao inquérito das fake news — instaurado em 2019 e relatado por Moraes — que já foi classificado pelo ex-ministro Marco Aurélio Mello como o “inquérito do fim do mundo”, em razão de seu escopo amplo e ausência de prazo definido.
Ministros avaliam que, embora irregularidades devam ser apuradas, o momento institucional exige cautela para evitar desgaste adicional à imagem da Corte.
Contexto: o caso Master e o impacto financeiro
O ambiente de tensão ocorre paralelamente aos desdobramentos financeiros envolvendo o chamado “caso Master”. O Banco Central do Brasil decretou nesta quarta-feira (18) a liquidação do Banco Pleno e da Pleno Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
Com isso, chega a oito o número de instituições com vínculos societários relacionados ao conglomerado que tiveram liquidação extrajudicial decretada.
O impacto estimado ao Fundo Garantidor de Créditos alcança aproximadamente R$ 51,8 bilhões:
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R$ 40,6 bilhões — Banco Master
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R$ 6,3 bilhões — Will Bank
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R$ 4,9 bilhões — Banco Pleno
No primeiro semestre, o FGC registrava cerca de R$ 122 bilhões em recursos.
As liquidações tiveram início em novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master e outras instituições do grupo. Posteriormente, a CBSF DTVM (antiga Reag Trust) e o Will Financeira também tiveram liquidações decretadas. O Banco Master Múltiplo permanece sob Regime Especial de Administração Temporária (RAET).
Veja todas as liquidações ligadas ao Banco Master-Daniel Vorcaro:
Banco Master S/A;
Banco Master de Investimento S/A;
Banco Letsbank S/A;
Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários;
CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (antiga Reag Trust);
Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento;
Banco Pleno S.A;
Pleno Distribuidora Títulos e Valores Mobiliário S.A.
O que dizem as autoridades
O Banco Central afirmou que continuará apurando responsabilidades administrativas e adotando medidas previstas na legislação.
No STF, ministros reiteram que eventuais crimes devem ser investigados, mas destacam a necessidade de preservar a institucionalidade.
Até o fechamento desta edição, o gabinete do ministro Alexandre de Moraes não havia divulgado manifestação adicional sobre os questionamentos internos.
Serviço ao leitor
Investidores das instituições liquidadas devem acompanhar os comunicados oficiais dos liquidantes nomeados pelo Banco Central. O FGC assegura cobertura até os limites legais vigentes.