Quando o trabalho adoece, Psicologia e Psiquiatria oferecem caminhos de prevenção e cuidado

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Afastamentos por transtornos mentais crescem e preocupam empresas no Brasil

Até o fim do dia, mais de mil trabalhadores brasileiros terão sido afastados de suas funções por transtornos mentais. Dados do Ministério da Previdência Social revelam que, em 2024, foram concedidos 472.328 benefícios relacionados a condições como ansiedade e depressão — alta de 68% em relação a 2023. Apenas no primeiro semestre deste ano, já são 271.076 afastamentos, quase o mesmo total registrado em todo o ano anterior.

A situação é ainda mais crítica quando se analisam casos de burnout. Entre 2021 e 2024, os afastamentos pela síndrome cresceram 178% no País e 212% em Minas Gerais. Os números consideram apenas trabalhadores que receberam benefícios após os primeiros 15 dias, pagos pelo INSS.

Especialistas alertam que o adoecimento acontece de forma silenciosa e progressiva, impulsionado por fatores como sobrecarga de tarefas, pressão por metas, assédio moral, falta de autonomia, insegurança profissional e desequilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “Esses elementos contribuem para um cenário de estresse crônico”, afirma o médico do trabalho Ricardo Turenko.

Para enfrentar o problema, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a valer em maio de 2026, incluiu riscos psicossociais no ambiente laboral. A mudança obriga empresas a mapear e prevenir situações que comprometam a saúde mental de seus empregados. “Agora, a norma explicita a responsabilidade legal do empregador sobre o bem-estar psicológico dos trabalhadores”, explica o advogado trabalhista Conrado Di Mambro, da OAB-MG.

A psiquiatra Renata Figueiredo, da Associação Brasileira de Psiquiatria, lembra que as mulheres são maioria entre os afastados (64%), em média aos 41 anos, reflexo do acúmulo de funções profissionais e domésticas. Já a psicóloga Elisabeth Lacerda, do CRP-MG, ressalta que cuidadores, professores e enfermeiros estão entre os mais vulneráveis ao esgotamento, pela rotina intensa de contato com pessoas em situação de fragilidade.

A vida por trás dos números: trabalhadores enfrentam esgotamento, estigma e altos custos

Os números do adoecimento mental representam histórias reais. Uma delas é a do enfermeiro Mateus, 26 anos, identificado apenas pelo primeiro nome nesta reportagem. Ele enfrentou o esgotamento profissional em sua forma mais grave: pensamentos suicidas. “Fui afastado em maio por 30 dias. O médico queria ampliar o período, mas tive receio de ser desligado. Trabalhava em regime 12×36 em um pronto-socorro público de Belo Horizonte, acumulando outro emprego. Chegou um momento em que o cansaço e a pressão se tornaram insuportáveis”, conta.

A situação vivida por Mateus expõe duas barreiras frequentes: o medo da demissão e o estigma em torno da saúde mental. “Muitos evitam procurar ajuda por receio de retaliações. Isso atrapalha a criação de políticas eficazes”, explica o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Após o afastamento, Mateus foi desligado do hospital e hoje estuda processar a instituição por assédio e homofobia, exemplos de riscos psicossociais no trabalho.

Casos como esse revelam que o problema não é apenas clínico, mas estrutural. “Muitas vezes, o trabalhador interpreta o sofrimento como algo íntimo, quando, na verdade, ele resulta de assédio, discriminação e cobranças abusivas”, analisa a psicóloga Stella Goulart, PhD em saúde mental coletiva.

Além do impacto emocional, há também o peso financeiro. Pesquisa da Serasa e da Opinion Box mostra que medicamentos (38%) e terapias (21%) são os principais investimentos em saúde mental dos brasileiros. Para 44% dos entrevistados, os gastos chegam a 10% da renda mensal, enquanto 26% afirmam viver dificuldades financeiras constantes por causa deles. “Cuidar da mente não pode ser privilégio. Planejamento financeiro também é prevenção”, reforça Thiago Ramos, especialista da Serasa.

Em pleno Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, a experiência de Mateus e os dados nacionais reforçam a urgência de políticas públicas, apoio empresarial e maior acesso a cuidados de saúde mental, para que histórias como essa não se repitam.

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