Terras raras movem alta tecnologia

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Terras raras ganham peso estratégico

A australiana Oceana Metals anunciou a compra do projeto Serra Negra, em Minas Gerais, reforçando o interesse estrangeiro por minerais críticos no Brasil. O ativo, localizado na Província Ígnea do Alto Paranaíba, próximo a Patrocínio, é descrito pela companhia como um projeto de terras raras hospedado em carbonatito, com potencial adicional para nióbio. A aquisição envolve 100% da Songeo Mineração, empresa brasileira que detém o projeto.

O negócio prevê pagamento inicial de US$ 2,95 milhões em dinheiro, 20 milhões de ações da Oceana Metals e até US$ 2,25 milhões adicionais conforme o avanço técnico do projeto, além de royalty de 2,5% aos vendedores. A companhia também anunciou captação de A$ 20 milhões para financiar a aquisição e acelerar pesquisas geológicas.

Apesar do potencial, Serra Negra ainda está em fase preliminar. O projeto não possui recurso mineral declarado e dependerá de novas sondagens, reanálises, estudos metalúrgicos, licenciamento, avaliação econômica e financiamento antes de se transformar em eventual operação mineral. A empresa prevê reavaliar cerca de 8 mil metros de testemunhos antigos e executar até 20 mil metros de sondagem.

As terras raras reúnem 17 elementos químicos usados em ímãs permanentes, veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, equipamentos médicos e aplicações de defesa. Embora não sejam necessariamente raras na crosta terrestre, são difíceis de encontrar em concentrações econômicas e de separar industrialmente.

Para o professor e estrategista Cássio Mota, PhD, a operação evidencia uma disputa global por cadeias produtivas fora da dependência chinesa. “Terras raras são estratégicas porque conectam mineração, tecnologia, energia e soberania industrial”, afirma.

O interesse por Minas se explica pela tradição mineral do Alto Paranaíba, região que abriga ativos relevantes de nióbio e minerais críticos. A proximidade de Araxá, Catalão e Tapira reforça a tese de que o estado pode ocupar posição importante na nova corrida global por insumos de alta tecnologia.

ESTRATÉGICAS 

Em meio à corrida global por minerais críticos, as terras raras passaram a ocupar papel central na indústria de alta tecnologia, na transição energética e na segurança econômica dos países. Embora o nome sugira escassez, esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre. O desafio está em encontrá-los em concentrações economicamente viáveis e separá-los com alto grau de pureza.


Os chamados Elementos de Terras Raras formam um grupo de 17 elementos químicos, segundo a classificação da União Internacional de Química Pura e Aplicada. Quinze pertencem ao grupo dos lantanídeos, do lantânio ao lutécio, e dois são associados ao conjunto por apresentarem propriedades semelhantes: escândio e ítrio.
A expressão “terras raras” tem origem histórica. Quando esses elementos foram identificados, entre o fim do século 18 e o início do século 19, muitos foram isolados na forma de óxidos, então chamados de “terras”. O termo “raras” surgiu porque eram difíceis de separar e purificar, não necessariamente por sua baixa presença na natureza.

Segundo o professor Cássio Mota, PhD, a importância desses elementos está em suas propriedades magnéticas, elétricas, ópticas, químicas e catalíticas. “As terras raras são estratégicas porque estão na base de tecnologias que conectam mineração, energia, defesa, medicina e indústria de ponta”, explica.
Entre as principais fontes minerais estão a bastnasita, rica em terras raras leves, como lantânio, cério e neodímio; a monazita, comum em areias monazíticas; a xenotima, relevante para terras raras pesadas e ítrio; além das argilas adsorvidas iônicas, loparita e perovskita.

Os elementos leves incluem lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário e európio. Já entre os pesados estão gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, ítrio e escândio.
Na prática, esses minerais estão presentes em produtos do cotidiano e em equipamentos estratégicos. São usados em celulares, computadores, televisores, turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias, catalisadores, lâmpadas, lentes especiais, equipamentos médicos, lasers, sistemas aeroespaciais e tecnologias de defesa.
O neodímio, por exemplo, é essencial para ímãs permanentes de alta potência, usados em motores elétricos, fones de ouvido, discos rígidos e turbinas eólicas. O disprósio e o térbio aumentam a resistência desses ímãs a altas temperaturas. O európio e o térbio têm aplicações em materiais luminescentes, enquanto o gadolínio é utilizado em contrastes para ressonância magnética.
O Brasil tem relação histórica com esse mercado. A exploração de areias monazíticas começou no fim do século 19, especialmente na Bahia, e o país chegou a figurar entre os principais fornecedores mundiais. Ao longo do século 20, porém, perdeu espaço para Estados Unidos e, posteriormente, para a China.
A China consolidou domínio global na mineração, separação e processamento desses elementos a partir das últimas décadas do século passado. Mesmo com participação hoje menor do que no auge, o país ainda mantém forte influência sobre a cadeia produtiva, especialmente nas etapas de refino, ligas e fabricação de ímãs.
Esse domínio explica a busca de países e empresas por novas fontes de suprimento. O Brasil volta a ser observado por investidores por seu potencial geológico, mas ainda enfrenta desafios importantes: transformar reservas em produção, dominar tecnologia de separação, agregar valor industrial e reduzir dependência externa nas fases mais sofisticadas da cadeia.
Para especialistas, o futuro das terras raras no país dependerá não apenas da mineração, mas da capacidade de criar uma política industrial integrada. Isso inclui pesquisa, licenciamento responsável, controle ambiental, formação técnica, processamento mineral, produção de componentes e inserção em cadeias globais de alta tecnologia.
Mais do que um tema mineral, as terras raras se tornaram assunto de soberania econômica. Em um mundo movido por eletrificação, digitalização e energia limpa, quem controla esses elementos controla parte relevante da indústria do futuro.

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